sexta-feira, 19 de abril de 2019

"PASSARINHA"; KATHRYN ERSKINE - EDITORA VALENTINA


Um livro incrível que aborda temas importantíssimos como a violência e as doenças mentais, uma história tocante, forte, escrita de uma forma apaixonante.

No mundo de Caitlin, personagem central, tudo é preto e branco. Qualquer coisa entre um e outro dá uma baita sensação de recreio no estômago e a obriga a fazer bicho de pelúcia. É isso que seu irmão, Devon, sempre tentou explicar às pessoas. Mas agora, depois do dia em que a vida desmoronou, seu pai, devastado, chora muito sem saber ao certo como lidar com isso. Ela quer ajudar o pai - a si mesma e todos a sua volta -, mas, sendo uma menina de dez anos de idade, autista, portadora da Síndrome de Asperger, ela não sabe como captar o sentido. 

Caitlin, que não gosta de olhar para a pessoa nem que invadam seu espaço pessoal, se volta, então, para os livros e dicionários, que considera fáceis por estarem repletos de fatos, preto no branco. Após ler a definição da palavra desfecho, tem certeza de que é exatamente disso que ela e seu pai precisam. E Caitlin está determinada a consegui-lo. Seguindo o conselho do irmão, ela decide trabalhar nisso, o que a leva a descobrir que nem tudo é realmente preto e branco, afinal, o mundo é cheio de cores, confuso mas belo. 

Um livro sobre compreender uns aos outros, repleto de empatia, com um desfecho comovente e encantador que levará o leitor às lágrimas e dará aos jovens um precioso vislumbre do mundo todo especial dessa menina extraordinária. 




TRECHOS E FRASES:



"O cinzento do lado de fora também está do lado de dentro. Dentro da sala. Dentro do armário. Dentro de mim. É tão cinzento que acendendo um abajur fica forte demais e dói. Por isso os abajures estão apagados. Mas ainda assim está claro demais."


"Livros não são como pessoas. Livros são seguros."


"Como pode existir alguma palavra mais especial que Coração?"


"Você só precisa continuar praticando. É uma questão de finesse.
 Finesse?
 Isso.
 Gostei dessa palavra. O que quer dizer?
 Fazer uma coisa com tato e habilidade ao lidar com uma situação difícil.
 Fico surpresa por se estar aprendendo essa palavra agora. Ela é a minha cara! É o que tento fazer todos os dias para lidar com essa situação difícil chamada vida."


"Acho que vai doer. Mas talvez depois da dor eu consiga fazer uma coisa boa e forte e bonita de tudo isso."


"Um filme é melhor do que a vida real porque nos filmes só os maus morrem. Ou então você pode escolher os bons filmes em que os maus morrem e só assistir a esses. Se enganarem você e uma boa pessoa morrer no filme aí você pode reescrever a cena na sua cabeça para a boa pessoa continuar viva e a cena da morte se tornar supérflua."


"A vida é especial.
 Quer dizer... que não sou só eu que sou especial? Tudo na vida é?
 Isso mesmo.
 Acho que a boa notícia é que todo mundo vai ter que aguentar ser especial porque todo mundo está vivo."


"Embora eu não achasse que iria gostar da empatia ela é uma coisa assim que chega sem avisar e faz você sentir um calorzinho gostoso no Coração. Acho que não quero voltar para uma vida sem empatia."


"Se todos compreendêssemos melhor uns aos outros, poderíamos fazer um grande avanço para deter a escalada da violência. Todos desejamos ser ouvidos e compreendidos. Alguns de nós se expressam melhor do que outros. Alguns de nós têm problemas sérios e que precisam ser abordados, não ignorados, custe o que custar. Economizar o dinheiro da sociedade é uma farsa se o preço dessa economia é em vidas humanas. As palavras ignorar e ignorância têm a mesma raiz."


"Compreender as dificuldades das pessoas e - igualmente crucial - ajudá-las a compreender suas próprias dificuldades e ensinar-lhes maneiras concretas de ajudar a si mesmas irá, por sua vez, ajudá-las a lidar melhor com suas próprias vidas e, por extensão, com as nossas."








segunda-feira, 16 de abril de 2018

"HOMENS SEM MULHERES"; HARUKI MURAKAMI, - EDITORA ALFAGUARA


Murakami é um autor capaz de criar universos próprios, que se desdobram em romances de fôlego e personagens cativantes. Mas ele é também um excelente contista, neste volume: sete histórias que tratam de relações amorosas e trazem o estilo único do autor.

São contos sobre o isolamento e a solidão que permeiam as relações amorosas: homens que perderam uma mulher depois de um relacionamento marcado por mal-entendidos. No entanto, as verdadeiras protagonistas destas histórias — cheias de referências à música, a Kafka, às Mil e uma noites e, no caso do título, a Hemingway — são as mulheres, que misteriosamente invadem a vida dos homens e desaparecem, deixando uma marca inesquecível na vida daqueles que amam.


TRECHOS E FRASES:



"Um dia, de repente, você vai ser um dos homens sem mulheres. Esse dia chegará subitamente, sem nenhum aviso prévio nem sinal, sem premonição nem pressentimento, sem uma tosse que seja ou uma batida na porta. Ao virar a esquina, você vai descobrir que já está ali. Mas não poderá voltar atrás. Uma vez que virar a esquina, será o único mundo para você. Nesse mundo você estará entre os "homens sem mulheres". Em um plural infinitamente indiferente."


"A imaginação o dilacerava lentamente, sem piedade, como uma faca afiada."


"Por mais terrível que seja a dor, eu preciso saber. Afinal, somente através do saber as pessoas conseguem ser fortes."


"Acho que eu realmente era feliz. Mas, justamente por ser feliz, às vezes era doloroso."


"Eu a perdia aos poucos desde quando ela era viva, e no final a perdi por completo. Como a terra que é desgastada pela erosão até que vem uma onda enorme e arranca tudo pela raiz..."


"Mas será que nós conseguimos compreender alguém por completo? Mesmo que amemos esse alguém profundamente?"


"A música tem o efeito de despertar nitidamente a memória, às vezes a ponto de fazer doer o peito."


"Ontem é o anteontem de amanhã.
 E o amanhã de anteontem."






sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

"A MARCA NA PAREDE E OUTROS CONTOS"; VIRGÍNIA WOOLF - EDITORA COSACNAIFY



A Marca na Parede e Outros Contos reúne alguns dos textos curtos mais significativos da obra de Virginia Woolf. Escritos entre 1917 e 1941, as histórias foram produzidas, em sua maioria, no conturbado período do entreguerras, sob o impacto de mudanças cujos ecos tiveram efeito direto na experiência sensível da escritora. Em “Uma sociedade”, a autora refuta o lugar intelectualmente inferiorizado conferido às mulheres na época; “Segunda ou terça” narra impressões do cotidiano de maneira nada óbvia; “O vestido novo” mostra ao leitor a investigação típica de Woolf acerca do sentido e forma dos fluxos de consciência. Cada um destes contos dá provas da grande qualidade literária que fez de Virginia Woolf uma das mais importantes escritoras do século XX.



TRECHOS E FRASES:



"Oh, meu Deus, o mistério da vida! A inexatidão do pensamento! A ignorância da humanidade!" - Conto: A Marca na Parede


"Porque, se quisermos comparar a vida a alguma coisa, temos de equipará-la a ser levada pelo metrô a oitenta quilômetros por hora - desembarcando no outro extremo sem um único grampo no cabelo! Lançada totalmente nua aos pés de Deus! De pernas para o ar nas campinas de asfódelos como embrulhos de papel pardo jogados, no correio, pela calha abaixo! Com o cabelo voando para trás como o rabo de um cavalo de corrida. Sim, isso parece expressar a rapidez da vida, o gasto perpétuo e a perpétua recuperação; e tão por acaso, tão a esmo..." 
- Conto: A Marca na Parede


"Não haverá nada a não ser espaços de luz e escuridão, cruzados por pedúnculos grossos, e talvez bem altos, traços em forma de roseta de uma cor indistinta - rosas pálidos e azuis - que se tornarão, com o passar do tempo, mais definidos, mais - não sei o quê..." 
- Conto: A Marca na Parede


"A árvore perto da janela bate de leve na vidraça... Quero pensar com calma, em paz, espaçosamente, nunca ser interrompida, nunca ter de me levantar da cadeira, deslizar à vontade de uma coisa para outra, sem nenhuma sensação de hostilidade, nem obstáculo. Quero mergulhar cada vez mais fundo, longe da superfície, com seus fatos isolados, indisputáveis. Firmar-me bem, deixar-me agarrar a primeira ideia que passa... Shakespeare... Bem, tanto faz ele ou outro. Um homem que solidamente sentou-se numa poltrona e olhou para o fogo e assim... Uma chuva de ideias caiu perpetuamente de algum Céu muito alto para atingir sua mente." 
- Conto: A Marca na Parede


"Suponha-se que o espelho se despedace, que a imagem desapareça e que a figura romântica com o fundo verde da floresta a envolvê-la não esteja mais lá, mas apenas aquilo, a casca de uma pessoa que é vista por outras - que mundo raso, árido, proeminente e sem ar ela se torna! Não um mundo no qual viver."
- Conto: A Marca na Parede


"E o que é conhecimento? O que são nossos homens de saber senão descendentes de bruxas e eremitas que se acocoravam em grutas e nas matas preparando suas beberagens de ervas, interrogando musaranhos e anotando a linguagem das estrelas?"
- Conto: A Marca na Parede


"Seja como for, não faz mal ficar olhando uma marca na parede para pôr um ponto final em nossos desagradáveis pensamentos."
- Conto: A Marca na Parede


"Gosto de pensar na árvore em si: primeiro na íntima e seca sensação de ser madeira; depois na trituração pela tempestade; depois na lenta, deliciosa penetração da seiva. Gosto de pensar nisso também nas noites de inverno, quando me ergo no campo vazio com as folhas todas dobradas, fechando-me sem nada expor de sensível aos projéteis de ferro que vêm da lua, um mastro nu na terra que não para, ao longo de toda a noite, de rodopiar. O canto dos passarinhos deve soar muito alto e estranho em junho; e que frio devem sentir nos pés os insetos, quando fazem seus laboriosos avanços, subindo pelas rugas da casca, ou tomam sol sobre o toldo verde e fino das folhas, olhando reto para a frente com seus olhos vermelhos, cortados em forma de diamante... Uma a uma as fibras estalam sob a imensa pressão fria da terra e vem então o temporal mais recente e os galhos mais altos, caindo, cravam-se na terra de novo, e fundo. Nem assim a vida acaba; para uma árvore, ainda há um milhão de vidas pacientes e atentas em todo o mundo, em quartos de dormir, em barcos, no assoalho, forrando salas onde homens e mulheres sentam-se depois do chá para fumar seus cigarros."
- Conto: A Marca na Parede


"De pé na beira do canteiro de flores, o casal se mantinha imóvel, e juntos eles fizeram pressão para enfiar a ponta da sombrinha dela bem fundo na terra mole. Tal ação e o fato de ele ter a mão sobre a dela expressavam de um modo estranho seus respectivos sentimentos, como aquelas palavras curtas e insignificantes expressavam também alguma coisa, palavras com asas curtas para seu corpo tão prenhe de significados, inadequadas para levá-las longe e assim pousando desajeitadamente nos próprios objetos comuns que as circundavam e que a seu tato inexperiente eram tão maciças: mas quem sabe (desse modo pensaram eles, ao espetarem a sombrinha na terra) que precipícios não estão ocultos nelas, ou que encostas de gelo não estão brilhando ao sol do outro lado? Quem sabe? Quem já viu isso antes? Mesmo quando ela se perguntava que tipo de chá poderia ser servido em Kew, sentia ele que alguma coisa assomava por trás de suas palavras e por trás delas se mantinha, vasta e sólida; e muito lentamente a neblina se levantou revelando - oh, meu Deus -, que formas eram aquelas? - mesinhas brancas e também garçonetes que olharam primeiro para ela e depois para ele; e houve uma conta que ele pagaria com uma moeda real de dois xelins, real mesmo, totalmente real, garantia-se ele, pondo os dedos na moeda em seu bolso, real para todo mundo, a não ser para eles dois; aliás para ele já começava a parecer real; e aí - mas, sendo por demais excitante continuar de pé e pensando, ele puxou a sombrinha para fora da terra, com um safanão, e mostrou-se impaciente para achar o lugar em que se tomava chá em companhia dos outros, como os outros."
- Conto: Kew Gardens


"A fala é uma rede velha e rasgada, pela qual os peixes escapam quando é jogada neles. O silêncio talvez seja melhor. Venha até a janela, vamos tentar."
- Conto: Noite de Festa


"Coisa estranha é o silêncio. A mente se torna como uma noite sem estrelas; mas de repente um meteoro desliza, esplêndido, atravessando a escuridão, e se extingue. Por essa diversão, nunca dizemos suficientemente obrigado."
- Conto: Noite de Festa


"Pense bem a esse respeito, a literatura é o registro do nosso descontentamento."
- Conto: Noite de Festa


"Nossa insígnia de superioridade, nossa ambição de honrarias. Você há de admitir que gosta mais das pessoas descontentes."
- Conto: Noite de Festa


"É fácil confessar nossos erros. Mas que escuridão é tão fechada para ocultar nossas virtudes?"
- Conto: Noite de Festa


"... após examinar por um momento o vidro, como que em hesitação, o enfiara no bolso. Tal impulso poderia também ter sido o impulso que leva uma criança a apanhar uma pedrinha num caminho no qual elas se esparramam, prometendo-lhe uma vida em segurança e quentura sobre a lareira do quarto, deleitando-se com a sensação de poder e benignidade que uma ação como essa propicia e acreditando que o coração da pedra pula de alegria quando se vê escolhido, dentre um milhão de iguais, para gozar de tal felicidade, não de uma vida de umidade e frio na estrada."
- Conto: Objetos Sólidos


"Fascinado pelo contraste entre a porcelana, tão vívida e alerta, e o vidro, tão contemplativo e calado, ele se perguntou, pasmo e perplexo, como os dois tinham vindo a existir no mesmo mundo, para plantar-se, além do mais, no mesmo cômodo, na mesma estreita faixa de mármore. Mas a pergunta permaneceu sem resposta."
- Conto: Objetos Sólidos


"A vida é o que você vê nos olhos dos outros; a vida é o que as pessoas aprendem e, tendo aprendido, nunca, embora o tentem esconder, deixam de estar conscientes de - do quê? De que a vida é assim, ao que parece."
- Conto: Um Romance Não Escrito


"Contra a vida, nada melhor do que dobrar o jornal para fazê-lo um quadrado crespo, grosso, perfeito, impérvio até à própria vida."
- Conto: Um Romance Não Escrito

"Eles chegam mais perto; param na estrada. O vento sopra, a chuva escorre prateada no vidro. Nossos olhos se toldam; não ouvimos passos ao lado; não vemos mulher alguma abrindo sua fantasmal vestimenta. Já ele protege o lampião com as mãos. "Olhe só", sussurra. "Dormem a fundo. Com amor nos lábios."
Dobrando-se, mantendo acima de nós seu lampião de prata, longa e profundamente eles olham. Longa é a pausa que fazem. O vento impele certeiro; a flama enverga fragilmente. Fachos fortes de luar cruzam pelo chão e a parede e, ao se encontrarem, mancham as faces que se dobram; as faces que ponderam; as faces que revistam os dormentes e buscam sua oculta alegria."
- Conto: Casa Assombrada
"... que o objetivo da vida é formar boas pessoas e produzir bons livros [...] Um bom homem deve ao menos ser honesto, apaixonado e desinteresseiro."
- Conto: Uma Sociedade

"Como é bela a bondade em quem, pisando de leve, passa sorrindo pelo mundo."
- Conto: O Quarteto de Cordas

"Aproxima-se a noite, e o verde, varrido pela sombra, vai para cima da lareira; a superfície enrugada do oceano. Não há navios chegando; as ondas a esmo balançam sob o céu vazio. A noite avança; das agulhas agora pingam traços de azul. O verde ficou de fora."
- Conto: Azul e Verde

"Ah, que trágica essa ganância, esse clamor de seres humanos que, como um bando de cormorões, batem asas e berram a pedir simpatia - era trágica, caso se pudesse realmente sentir, e não apenas fingir que se sentia tal coisa!"
- Conto: O Vestido Novo


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

"ESPERANDO GODOT"; SAMUEL BECKTT - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS



Expoente do Teatro do Absurdo, escrita em 1949 e levada aos palcos pela primeira vez em 1953, Esperando Godot é uma tragicomédia em dois atos que segue desafiando público e crítica. Na trama, duas figuras clownescas, Vladimir e Estragon, esperam por um sujeito que talvez se chame Godot. Sua chegada, que parece iminente, é constantemente adiada. Em um cenário esquálido — uma estrada onde se vê uma árvore e uma pedra —, Beckett revoluciona a narrativa e o teatro do século XX. 



TRECHOS E FRASES:


"Eis o homem: Jogando no sapato a culpa dos pés."


"Vladimir: Você devia ter sido poeta.
  Estragon: E fui. (Indicando os farrapos com um gesto) Não está na cara?"


"Quanto mais gente conheço, mais feliz eu fico. Até da mais humilde das criaturas nós nos despedimos mais sábios, mais ricos, mais seguros de nossas bençãos."


"As lágrimas do mundo são em quantidade constante. Para cada um que irrompe em choro, em outra parte alguém para. com o riso é a mesma coisa."


"O que poderia fazer, digo a mim mesmo, para que o tempo lhes pareça menos arrastado? Dei lhes ossos, falei disto e daquilo, troquei em miúdos o crepúsculo, são favas contadas. Mas será que basta, é a questão que não cala, será que basta?"


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

"NA MINHA PELE"; LÁZARO RAMOS - EDITORA OBJETIVA


Como escreve o próprio Lázaro este livro não é uma biografia. Trata-se de uma leitura bastante interessante que fala de forma abrangente sobre preconceito e discriminação racial, com uma base de pesquisa ampla e extensa (incluindo suas próprias vivências). Vem trazendo uma proposta de maior observação e vigilância na nossa conduta em relação ao outro.

Movido pelo desejo de viver num mundo em que a pluralidade cultural, racial, étnica e social seja vista como um valor positivo, e não uma ameaça, Lázaro Ramos divide com o leitor suas reflexões sobre temas como ações afirmativas, gênero, família, empoderamento, afetividade e discriminação. 
Ainda que não seja uma biografia, em Na minha pele Lázaro compartilha episódios íntimos de sua vida e também suas dúvidas, descobertas e conquistas. Ao rejeitar qualquer tipo de segregação ou radicalismos, Lázaro nos fala da importância do diálogo. Não se pode abraçar a diferença pela diferença, mas lutar pela sua aceitação num mundo ainda tão cheio de preconceitos. 


TRECHOS E FRASES: 


"Para crescer, o Brasil precisa potencializar seus talentos, e o preconceito é um forte empecilho para que isso aconteça."


"A linha que costura este livro é a minha formação sobre esse tema, mas que, no fundo, é só um artifício para falar de todos nós."


"Toda boa viagem começa numa ilha, pelo menos pra mim. Amo as ilhas como amo me lembrar das mãos da minha mãe."


"Na ilha, o conceito de beleza era o nosso. Cresci com minha mãe e minhas tias dizendo que eu era lindo. Não tinha ideia se seria discriminado ou se as minhas escolhas ficariam mais difíceis por causa da cor da minha pele. O que eu entendia eram as limitações de uma família com pouco dinheiro."


"Por isso, digo sempre aos meninos e meninas que têm origem parecida com a minha: não há vida com limite preestabelecido. Seu lugar é aquele em que você sonhar estar."


"Minha mente entorta quando penso no tanto que a mentalidade escravagista ainda molda as relações patrão / empregado."


"Às vezes, para ser mito, basta fazer silêncio e a cara certa."


"Entretenimento e reflexão andam juntos."


"Mas quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim."


"O orgulho de minhas origens, porém, não se sobrepôs a um grande ensinamento que recebi em casa: o de não estimular a separação."


"Nomear é importante, é um exercício para não perdermos os atributos que nos distinguem, para provocar empatia com o outro. Um simples nome - como Cláudia - pode revelar a dimensão humana de alguém, gerando empatia e, consequentemente, valorização."


"Quase sempre, percebia que eu era o único negro dentro de um bar ou de um restaurante. Assim como no colégio, eu era a exceção."


"Antes de tudo, tinha certeza de que não precisava falar o tempo todo de discriminação. Não queria ser chato, queria apenas ser ouvido.
[...] Nunca em tom agressivo. A delicadeza era consciente mesmo. Foi o caminho que achei, não sei se melhor ou pior, mas foi o que era possível para mim. Quanto mais o tempo passava, mais eu sentia que eles prestavam atenção no que eu falava. Eu não estava fazendo uma panfletagem explícita. Hoje em dia de vez em quando, acho importante falar para incomodar. Mas naquele momento, decidi que existiam questões que não precisavam ser ditas, tinham de ser pensadas."


"E assim se desenvolveu uma carreira cujas informações você pode acessar em blogs, sites e entrevistas. O que não está disponível nesses lugares é algo que permaneceu comigo durante todo esse tempo, algo sensorial e difícil de descrever com palavras. Os desafios de ascender socialmente e se inserir em outra realidade sendo uma exceção."


"Mas não me desfaço da frase, ainda acredito que o lugar de cada um é aquele onde ele deseja estar."


"Quando nos prendemos muito a esse elogio da história pessoal ("ela veio da favela e conseguiu"), corremos o risco de dizer que o outro não conseguiu porque não quis, e isso não é verdade."


"Precisamos ter nossos registros, principalmente porque nossa cultura é muito oral e foi desprezada por décadas e mais décadas pelos que escrevem oficialmente a história."


"Nem tudo na vida é organizadinho e óbvio. A questão racial nos afeta sem às vezes nos darmos conta. Todo mundo conhece alguém que foi discriminado, mas numa roda ninguém levanta a mão para se dizer racista."


"Inundar uma criança com referências positivas sobre seu lugar no mundo é o primeiro passo para aumentar sua autoestima."


"A ideia da raça negra como sinônimo de degeneração parece ter perdurado."


"A equação não é simples, o fato de inserir o negro de forma positiva na mídia não significa que a sociedade o aceitará melhor."


"A escravidão mantinha de forma clara o papel de cada um na sociedade. Foi quando a escravidão começou a dar sinais de que iria terminar que o negro passou a ser uma preocupação."


"A imagem do negro ainda está muito ligada à pobreza. Então, em parte, há uma certa resistência do ponto de vista mercadológico a colocar negros em propagandas. E outra coisa é que a publicidade, do ponto de vista cultural, reflete as relações hierárquicas presentes na sociedade. Enquanto o negro for excluído e discriminado em todos os setores, não será maioria nos comerciais de TV, outdoors e anúncios de revistas e jornais. A publicidade não virá como elemento de vanguarda que vai mudar a imagem do negro perante a mídia. Ela vai mudar à medida que a sociedade for mudando sua resistência em relação ao negro."


"Muitas vezes o racismo faz com que a gente não trilhe nosso caminho e comece a pautar nossas ações pela demanda do preconceito. Às vezes não seguimos adiante porque paramos nos limites impostos pela sociedade, e nós temos que caminhar mais, temos que entender a complexidade das coisas, das pessoas, temos que ter liberdade. Até onde isso é uma ação ou uma resposta ao preconceito? Estou buscando a liberdade ou respondendo aos limites que o racismo me impõe? Quero crer que escolhi uma maneira de não viver pela demanda do racismo. Ao não aceitar caixas que seriam mais facilmente adaptáveis, busco a libertação."


"Olhar para o outro co desejo, potencializar o afeto por meio do toque, tudo isso traz autoestima e conforto. A morte pela solidão, por não receber um olhar de carinho, de desejo, é trágica."


"Exercite o olhar, sem preconceber nada."




Vídeo citado no livro:


Os efeitos do racismo em crianças.
O "teste de boneca" é uma experiência psicológica projetada na década de 1940 nos EUA para testar o grau de marginalização sentida por crianças afro-americanas causadas por preconceitos, discriminação e segregação racial. Dado o aumento considerável do fenômeno da migração na Europa nos últimos anos, decidimos recriar o teste com crianças italianas. Na verdade, milhares de migrantes pousam todos os anos na costa do Mediterrâneo em busca de um futuro melhor, alguns para melhorar suas condições econômicas, outros são refugiados políticos, fugindo de zonas de guerra, discriminação e às vezes perseguição étnica, religiosa ou política. 2015 foi considerado o ano da "invasão" que ameaçou acabar com os equilíbrios sociais, econômicos e culturais na Europa. A vigilância cada vez mais estreita das fronteiras e fronteiras poderia determinar, no entanto, um risco para aniquilar definitivamente qualquer possibilidade de diálogo ou integração. Em todos os países europeus vivem muitos migrantes de segunda, terceira e quarta geração, que agora são cidadãos de pleno direito dessas nações, como essas crianças italianas. No entanto, para muitos, eles permanecem "diferentes", "estrangeiros", uma definição perigosa que, nos últimos tempos, poderia ser conjugada de forma ilegítima com o fenômeno do terrorismo. Sem uma séria mudança política e social em perspectiva, corremos o risco de distorcer perigosamente a percepção que temos dos outros e a percepção de que os outros têm de si mesmos.


"NÃO SERÁ EM 2012"; GERALDO LEMOS NETO



Não estamos entregues à fatalidade nem predeterminados ao sofrimento, mas diante de uma encruzilhada do destino coletivo que nos une à nossa casa planetária, aqui na Terra. Temos diante de nós dois caminhos a seguir. O caminho do amor e da sabedoria nos levará à mais rápida ascensão espiritual coletiva. O caminhodo ódio e da ignorância acarretar-nos-á mais amplo dispêndio de séculos na reconstrução material e espiritual de nossas coletividades.

Este livro contém artigos publicados no jornal Folha Espírita, e tem por finalidade divulgar o que o maior médium da história humana - Chico Xavier - revelou sobre a data-limite do velho mundo.

Geraldo Lemos Neto conta tudo o que ouviu do médium sobre o assunto, em1986. Marlene Nobre relembra a entrevista de Chico à Folha Espírita, em1992, com revelações sobre o papel do Brasil na Nova Era.

Saíram a campo por um dever de consciência, e creem poder contribuir, embora modestamente, para o alerta que se faz necessário aos irmãos da Casa Planetária, quanto à responsabilidade individual e coletiva na manutenção da Paz - única condição de ascensão espiritual para a humanidade.



TRECHOS E FRASES:



"Mudando nossa forma de pensar, poderemos aumentar nosso senso de integração com o Universo e, consequentemente modificar nossa realidade" - Malkun


"Muita coisa vai mudar na nossa galáxia. Nesse próximo ciclo cósmico, as atividades do Sol vão sofrer grandes modificações, devido a trajetória que vai percorrer. Como consequência, a temperatura da Terra vai aumentar e haverá elevação do nível do mar devido ao derretimento do gelo nas montanhas e nas calotas polares. As correntes marítimas sofrerão alterações, e o clima, nas várias regiões do planeta, vai passar por mudanças dramáticas. A Terra vai receber mais energia do Sol e do centro da galáxia, elevando o nível de nossa energia vital e acarretando mudanças na nossa mente, com consequentes mudanças nas nossas crenças e na nossa realidade."


"Quanto as profecias, Emmanuel acentua as profundas transformações pelas quais o globo passará, mas pede-nos discernimento para não nos atermos às convulsões físicas de natureza espetacular, que, certamente, ocorrerão detendo-nos, em especial, na renovação moral, que é essencial, à nossa evolução. Dá ênfase ao cultivo das lições de Jesus em nossos atos, para que possamos herdar nossa Casa Planetária. Tendo em vista a gravidade da hora presente e a nossa responsabilidade na construção de um mundo melhor..."


"É importante saber que, de todas as etapas pelas quais passou, o nosso planeta, nestes últimos 260 mil anos, sofreu grandes transformações com o desaparecimento, a cada 28 mil anos, de quatro grandes civilizações, sendo as duas últimas a lemuriana e a atlântida. No presente momento, está em vias de sofrer novos cataclismos, com o final de ciclo de 28 mil anos. Quanto ao desaparecimento completo da Atlântida, o mentor fornece dados preciosos, confirmando que as últimas ilhas habitadas pelos remanescentes daquela grande civilização afundaram de vez há 9 mil ou 10 mil anos antes da Grécia de Sócrates, o que corresponde a cerca de 12,5 mil anos dos nossos dias."


"... recomenda-nos nosso Orientador Espiritual (Emmanuel) um interesse mais efetivo para a fixação de valores morais em nossa personalidade terrena, de conformidade com os padrões estabelecidos no Evangelho de nosso Divino Mestre. Porque, se, para nossa inteligência, os fenômenos renovadores da existência, que nos cercam, têm qualquer coisa de sensacional, de surpreendente, nosso coração deve inclinar-se, humilde, diante da Majestade do Senhor; que nos concede tantas oportunidades de trablho, em nós mesmos (...)"


"Segundo nosso Benfeitor, devemos permanecer fiéis a Deus, em qualquer circunstância, mesmo nas mais adversas."



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

"VIVER EM PAZ PARA MORRER EM PAZ"; MÁRIO SÉRGIO CORTELLA - EDITORA PLANETA


Neste livro o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella discorre sobre assuntos importantes na nossa trajetória de vida. 

Não é ser famoso e nem acumular coisas e propriedades, em uma obsessão consumista. Importante é ser importante para alguém, ou seja, fazer falta para alguém.

Como na filosofia em si Cortella nos faz questionar sobre o sentido real da vida e seus valores.

Leitura recomendadíssima!


TRECHOS E FRASES:



"Afinal, viver em paz não é viver sem problema, sem encrenca, sem dificuldade. Viver em paz é viver com a certeza de que não está vivendo de forma morna!"


"Fazer falta significa que eu tenha ficado nas pessoas."


"O que apequena a vida? O desperdício de convivência, a incapacidade de ter algo que não seja superficial, a possibilidade de esquecer as noções importantes de vida que são: fraternidade, solidariedade, amorosidade."


"... pouca coisa é mais perigosa na existência do que o óbvio, essa âncora que paralisa o pensamento e induz à falsidade, à distorção, ao erro."


"Todo conhecimento e todo avanço vão contra o óbvio, contra tudo aquilo que ancora, que evita o progresso e o desenvolvimento humano. Sim, mudar é complicado, pois a mudança é contrária à imobilidade - e a imobilidade diversas vezes se esconde por trás da máscara traiçoeira da coerência. Os melhores artistas não são coerentes. São a antítese do óbvio... Há muitas maneiras de fugir do óbvio, e os melhores artistas são especialistas nisso."


"Nós nascemos crus e vamos nos fazendo."


"Dos vários modos que existem para aprender a viver melhor, um dos que mais aprecio é a escrita. Para escrever, é preciso pensar. Para escrever bem, é preciso pensar bem. Escrever ajuda a elaborar o mundo. A escrita tem funções que muita gente não imagina; é útil nas situações mais diversas e inusitadas. A humanidade faz isso há séculos: para espantar seus fantasmas, ela escrever."


"... o conflito é inerente à convivência humana - conflito é uma divergência de posição, de postura, de ideias, de atitudes. Conflitos são inevitáveis. O que não pode acontecer é que o conflito se transforme em confronto, que vem a ser a tentativa de anular o outro. Uma guerra nunca é um conflito; é sempre um confronto."


"A coerência contínua é sinal de loucura - uma das maiores características da loucura é nunca ter dúvidas, é pensar como faz e fazer como pensa."


"Convicção absoluta é loucura plena. Quem não tem dúvida faz sempre do mesmo modo. Quem tem dúvida se inova, se reinventa."


"Na vida, nós devemos ter raízes, e não âncoras. Raiz alimenta, âncora imobiliza."


"Nostalgia é uma lembrança que dói, saudade é uma lembrança que alegra."


"Flexível é aquele que muda quando considera adequado mudar. Volúvel é aquele que muda por qualquer coisa. A nostalgia é a tristeza da mudança que conduz ao crescimento."


"Não é o erro, é a correção do erro que ensina."


"Para lidar com mudanças, você precisa, sobretudo, prestar atenção nas pessoas."


"Prestar atenção no outro de maneira sincera, eis um aprendizado que devemos procurar desenvolver nas nossas relações. Como estamos acomodados com o que somos, é o outro que nos ensina e nos liberta das nossas amarras e âncoras. Mas, para avançar, é preciso ser capaz de acolher aquele que não concorda comigo."


"Respeitar o time de futebol alheio é uma maneira soberba de ensinar a respeitar e a acolher as ideias, as posições e as perspectivas do outro."


"A divergência é admissível, e até desejável, mas ela nunca pode conduzir à anulação do outro, daquele que pensa diferente de você."


"... paz não é ausência de conflito ou inexistência de desacertos, e sim a capacidade de administrar as turbulências sem se perder."


"... pedras são apenas pedras, umas grandes, outras menores. São obstáculos a serem contornados. O que não pode acontecer é que as pedras se tornem barreiras. Pedras são fronteiras: elas demarcam um território de risco, mas não indicam impossibilidade."


"Gosto mesmo da ideia de amar o amor - a capacidade de guardar aquilo que me faz bem."


"Obedecer ao coração não é ser dominado pelo coração, não é excluir a razão. Obedecer ao coração é agir em equilíbrio, numa parceria, entre o coração e a razão. Para mim, o equilíbrio ideal é aquele da bicicleta, o equilíbrio que só existe quando se está em movimento."


"Para mim, equilíbrio não é um ponto estático entre dois opostos, não é estar no meio. É ir aos extremos e não se perder, seja na ciência, na religião, na política, nos experimentos, no erótico. É ser capaz de vivenciar os múltiplos territórios da vida sem neles se ancorar."


"Excesso de oferta muitas vezes é incapacidade de escolha. Quem transa com quem quer quando quer não é um libertário, e sim uma pessoa com sentimentos caóticos em relação às suas escolhas."


"Aquele que leva uma vida não crítica, ou sem critérios, não tem rumo, é um alienado. 
Por isso, o equilíbrio não está em vivenciar tudo e qualquer coisa, mas em saber fazer escolhas..."


"Se tudo tem validade, até a apreciação do mundo fica afetada. Gostar de qualquer comida ou de qualquer pessoa denota que a noção de gosto está prejudicada. Gostar, ter afeto, desejar sem critério só demonstra ausência de capacidade de entendimento."


"Apegar-se é olhar o outro como um igual, que deve ser preservado, e não como um estranho, que pode ser descartado."


"Não dizem que a diferença entre um jovem e um idoso é que o jovem tem tempo, mas não tem projetos, e o idoso tem projetos, mas não tem tempo? Sem projetos, não se defende o futuro."


"... apego impede que se fira aquilo que se ama, pois ferir o que se ama é ferir a si mesmo."


"O amor conduz a graça. A paixão é o ponto de partida, o impulso para o amor. A paixão, porém, é desgraçada. Como não tem controle sobre sua força e seu movimento, ela produz beleza como um vulcão, mas na sequência vem a destruição."


"É impossível pensar o mundo da filosofia sem pensar o mundo dos livros, pois ele se dá basicamente no campo teórico."


"Karl Marx estava certo ao dizer que o capital destruiu a família."


"O autoconhecimento é um processo necessário e fundamental para a melhoria de si mesmo - um processo interminável, pois tudo o que acontece à nossa volta nos afeta e nos transforma."


"A complexidade incomoda a humanidade."


"... pois é preciso haver a ausência, a carência, para valorizar a percepção do presente."


"A felicidade, assim como o erótico, precisa de latência para repousar e renascer."


"As pessoas não abraçam uma religião para se sentirem mais sábias, e sim para se sentirem mais fortes. Por isso, é inútil discutir religião. Não porque não se possa - pode, pois ela é também um sistema de ideias -, mas porque ela é, sobretudo, um sistema de crenças e forças. Por isso, discutir religião nunca é um debate teórico, seja sobre ideologia ou princípios. Discutir religião é tentar afrontar o que dá sentido à vida do outro."


"Isso é felicidade: sentir-se vivo. Há pessoas que se sentem felizes ao acumular riquezas. Outras, ao zelar pela família. Outras ainda ao curtir seus livros e suas plantas."


"Vida é vibração."


"Viver em paz para morrer em paz! Viver em paz não é viver sem problemas, sem atribulações, sem tormentas. Viver em paz é viver com a clareza de estar fazendo o que precisa ser feito, ou seja, não apequenar a própria vida e nem a de outra pessoa, ou qualquer outra vida. Viver em paz é repartir amizade, lealdade, fraternidade, solidariedade, vitalidade.
Morrer em paz é poder ter-se livrado das tentações da futilidade de muitos propósitos, recusado a atração pela vacuidade de intenções e afastado a indecência de uma vida apequenada, infértil e desértica."





sexta-feira, 8 de setembro de 2017

"RUÍDO BRANCO", DON DELILLO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS



Considerado um dos 1001 livros para ler antes de morrer Ruído Branco é o oitavo romance de DeLillo.

Conta a história de um professor universitário que vive com a família no Meio-oeste americano, numa cidadezinha que é evacuada depois de um acidente industrial. À luz de desastres como o da Union Carbide na Índia, que matou mais de duas mil pessoas e feriu outras milhares (e que acabara de ocorrer quando o livro foi publicado), Ruído branco mantém seu sentido atual e aterrorizante."A grande particularidade de Ruído branco é sua compreensão e percepção da trilha sonora dos Estados Unidos. 

O ruído branco inclui o som sempre presente do tráfego da auto-estrada, um murmúrio remoto e constante que contorna nosso sono, como almas mortas balbuciando nas margens de um sonho.Não é tanto com o caráter que DeLillo se preocupa: seu tema é basicamente a cultura, a sobrevivência e a interdependência crescente entre o eu e a comunidade nacional e mundial. O homem viril diante dos elementos, o fora-da- lei, o super-herói, existem no mundo moderno apenas como mitos; somos os elementos da natureza, um povo tecnologicamente orientado que nem por isso deixa de estar preso na peneira da história. No que DeLillo escreve existe o suspense e uma inteligência que questiona, um sentido simultâneo do círculo que se amplia e da malha fina da rede." The New York Times Book Review



TRECHOS E FRASES:


" - Por que a gente não pode encarar a morte de modo inteligente? - perguntei
  - A resposta é óbvia.
  - É?
  - Ivan Ilitch gritou durante três dias. É o máximo de inteligência a que se pode aspirar. O próprio Tolstói lutava para entender. Morria de medo."


" - Nossa consciência da morte não torna a vida mais preciosa?
  - De que vale a sensação de que a vida é preciosa se ela se baseia no medo e na ansiedade?"


"É para isso que serve a tecnologia. Por um lado, ela cria o apetite da imortalidade. Por outro, ameaça destruir toda a Terra. A tecnologia é a lascívia afastada da natureza."


"O medo é antinatural. O relâmpago e o trovão são antinaturais. A dor, a morte, a realidade, tudo isso é antinatural. Não suportamos estas coisas tais como elas são. Sabemos demais. Por isso apelamos para a repressão, as concessões, os disfarces. É assim que sobrevivemos no Universo. Esta é a linguagem natural da espécie."


"A pessoa passa a vida toda se despedindo dos outros. Como é que ela se despede de si própria?"


"Pela primeira vez compreendi o que era a chuva. Sabia o que era o úmido. Compreendi a neuroquímica do meu cérebro, o significado dos sonhos (o refugo das premonições)."


"Grandes emoções inomináveis latejavam em meu peito. Eu sabia quem eu era na rede de significados."


"Eu enxergava além das palavras."


"Os que não creem precisam dos que creem. Eles precisam desesperadamente que haja alguém que creia."


"Nossa tarefa no mundo é acreditar em coisas que ninguém mais leva a sério."




sexta-feira, 9 de junho de 2017

"A RESISTÊNCIA", JULIÁN FUKS - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS



“Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.”, escreve, logo na primeira linha, Sebastián, narrador deste romance. Como em diversas obras que tematizam a Guerra Suja — o regime de terror inaugurado em 1976 na Argentina —, A resistência envereda pela memória pessoal e nacional.

Sebastién é o filho mais novo, e seu irmão adotado, o primogênito de um casal de psicanalistas argentinos que logo buscarão exílio no Brasil. Os pais conhecem bem as teorias sobre filhos adotados e biológicos (Winnicott, em especial), mas a vida é diferente da bibliografia especializada. Cabe então ao narrador o exame desse passado violento e a reescritura do enredo familiar. O resultado, uma prosa a um só tempo lírica e ensaística, lembra belos filmes platinos como O segredo dos seus olhos.



TRECHOS E FRASES:


"Que força tem o silêncio quando se estende muito além do incômodo imediato, muito além da mágoa."


"Ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência. Talvez a afirmação da continuidade da vida fosse apenas mais um modo de se opor à brutalidade do mundo."


"Mas há pesares que não sucumbem a argumentos, há dores que não se exageram. Há histórias que não se inventam à mesa, entre goles e garfadas,  entre papos quaisquer, histórias que recusam a proximidade com a leveza, que não se prestam à ruminação corriqueira, às frases diárias. Há casos que não habitam a superfície da memória e que, no entanto, não se deixam esquecer, não se deixam recalcar. No espaço de uma dor cabe todo o esquecimento, diz um verso sobre estas coisas incertas, mas os versos nem sempre acertam. Às vezes, no espaço de uma dor cabe apenas o silêncio. Não um silêncio feito da ausência das palavras: um silêncio que é a própria ausência."


"Nas páginas desse discurso conheci algo mais: a atrocidade de um regime que mata e que, além de matar, aniquila os que cercam suas vítimas imediatas, em círculos infinitos de outras vítima ignoradas, lutos obstruídos, histórias não contadas - a atrocidade de um regime que mata também a morte dos assassinados."


"É preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir,"


"Um dia tudo é provisório."


"Como é imensurável o tempo da inação, o tempo da distância, o tempo do silêncio, como é diferente deste tempo do encontro, das vozes que se cruzam, dos rostos que se veem."





VÍDEO:


Booktrailer: "A resistência", de Julián Fuks pelo canal da Companhia das Letras.






quarta-feira, 24 de maio de 2017

"BONECAS RUSSAS", ELIANA CARDOSO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS



Desde pequena, Leda foi tímida e sonhadora. Adorava lendas e colecionava mitos. Tendo herdado o interesse, mas não o talento artístico da mãe, tornou-se dona de uma galeria de arte. Já Lola sempre foi decidida e mandona. Obcecada por teatro, escrevia e distribuía papéis entre as amigas para as pequenas produções que seriam apresentadas nos aniversários. Quando cresceu, virou jornalista. 'Bonecas russas' é a história de Lola e de Leda, mas é também a história de Francisca, mãe de Leda, que a abandonou quando criança e nunca conseguiu restabelecer uma relação saudável com a filha. É a história de Odete, mãe de Lola, que se envolveu em um escândalo acompanhado por toda a cidadezinha de interior em que morava. É a história de Rosália, irmã de Francisca, a tia solteira que acabaria por criar as duas meninas juntas. E é a história de Miranda, filha do primeiro casamento do marido de Leda, que cresceria e também se tornaria jornalista, como Lola. O resultado é um emaranhado de relações que nem sempre são sempre claras, ideais ou mesmo construtivas, mas que vão se desdobrando até a revelação dos mistérios que cada uma dessas seis mulheres pretendera guardar apenas para si. Em sua estreia na ficção, Eliane Cardoso cria uma narrativa inteligente, original e surpreendente, composta de múltiplas vozes, todas especiais à sua maneira.



TRECHOS E FRASES:



"A posição natural do homem é a de flutuar no lugar que lhe sobra no meio dos anjos e demônios. Dessa forma, extrapola a própria mediocridade aquele que, quando tenta agarrar o nada, se torna gigantesco. E quando avança rumo ao infinito, enxerga a própria insignificância e percebe que a menor distância é insuperável. No meio dos anjos e demônios, ele entende que sua vida é ínfima, desnecessária, passageira. Comparados ao infinito, oitenta anos ou oitocentos são o mesmo que nada. Do ponto de vista da eternidade já estamos mortos ao nascer."


"O homem planeja seus passos e o diabo os embaralha."


"... felicidade é isso: aquele momento em que o tempo para. Quando acontece, me encanto."


"Vai. Mas verás que a saudade é como erva daninha. Arrancas. E ela brota de volta."


"Minhas alegrias e tristezas pertencem a esse mundo."


"... os alicerces dos nossos amores se compõem de antipatias: sem algo para odiar, faltaria a mola que impulsiona a paixão. " Sem paixão, a vida se transforma numa poça d'água estagnada"... "Como a réstia de luz precisa da escuridão, só a maldade torna possível a ternura.""


"Veja como a sociedade se comporta. Transforma a religião em fanatismo e o patriotismo em guerra. Qualquer pretexto nos basta para tentar estraçalhar o vizinho. O patriotismo nos faz amar os brasileiros? Não. Exige apenas o ódio a americanos e argentinos. O amor à virtude desperta o desejo de corrigir suas próprias faltas? Não. Apenas alimenta sua indignação contra o vício alheio."


"Cada um, e mais ninguém, sabe quem é o seu Shakespeare ou o Tiziano que lhe ilumina a alma."