sexta-feira, 8 de setembro de 2017

"RUÍDO BRANCO", DON DELILLO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS



Considerado um dos 1001 livros para ler antes de morrer Ruído Branco é o oitavo romance de DeLillo.

Conta a história de um professor universitário que vive com a família no Meio-oeste americano, numa cidadezinha que é evacuada depois de um acidente industrial. À luz de desastres como o da Union Carbide na Índia, que matou mais de duas mil pessoas e feriu outras milhares (e que acabara de ocorrer quando o livro foi publicado), Ruído branco mantém seu sentido atual e aterrorizante."A grande particularidade de Ruído branco é sua compreensão e percepção da trilha sonora dos Estados Unidos. 

O ruído branco inclui o som sempre presente do tráfego da auto-estrada, um murmúrio remoto e constante que contorna nosso sono, como almas mortas balbuciando nas margens de um sonho.Não é tanto com o caráter que DeLillo se preocupa: seu tema é basicamente a cultura, a sobrevivência e a interdependência crescente entre o eu e a comunidade nacional e mundial. O homem viril diante dos elementos, o fora-da- lei, o super-herói, existem no mundo moderno apenas como mitos; somos os elementos da natureza, um povo tecnologicamente orientado que nem por isso deixa de estar preso na peneira da história. No que DeLillo escreve existe o suspense e uma inteligência que questiona, um sentido simultâneo do círculo que se amplia e da malha fina da rede." The New York Times Book Review



TRECHOS E FRASES:


" - Por que a gente não pode encarar a morte de modo inteligente? - perguntei
  - A resposta é óbvia.
  - É?
  - Ivan Ilitch gritou durante três dias. É o máximo de inteligência a que se pode aspirar. O próprio Tolstói lutava para entender. Morria de medo."


" - Nossa consciência da morte não torna a vida mais preciosa?
  - De que vale a sensação de que a vida é preciosa se ela se baseia no medo e na ansiedade?"


"É para isso que serve a tecnologia. Por um lado, ela cria o apetite da imortalidade. Por outro, ameaça destruir toda a Terra. A tecnologia é a lascívia afastada da natureza."


"O medo é antinatural. O relâmpago e o trovão são antinaturais. A dor, a morte, a realidade, tudo isso é antinatural. Não suportamos estas coisas tais como elas são. Sabemos demais. Por isso apelamos para a repressão, as concessões, os disfarces. É assim que sobrevivemos no Universo. Esta é a linguagem natural da espécie."


"A pessoa passa a vida toda se despedindo dos outros. Como é que ela se despede de si própria?"


"Pela primeira vez compreendi o que era a chuva. Sabia o que era o úmido. Compreendi a neuroquímica do meu cérebro, o significado dos sonhos (o refugo das premonições)."


"Grandes emoções inomináveis latejavam em meu peito. Eu sabia quem eu era na rede de significados."


"Eu enxergava além das palavras."


"Os que não creem precisam dos que creem. Eles precisam desesperadamente que haja alguém que creia."


"Nossa tarefa no mundo é acreditar em coisas que ninguém mais leva a sério."




sexta-feira, 9 de junho de 2017

"A RESISTÊNCIA", JULIÁN FUKS - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS



“Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.”, escreve, logo na primeira linha, Sebastián, narrador deste romance. Como em diversas obras que tematizam a Guerra Suja — o regime de terror inaugurado em 1976 na Argentina —, A resistência envereda pela memória pessoal e nacional.

Sebastién é o filho mais novo, e seu irmão adotado, o primogênito de um casal de psicanalistas argentinos que logo buscarão exílio no Brasil. Os pais conhecem bem as teorias sobre filhos adotados e biológicos (Winnicott, em especial), mas a vida é diferente da bibliografia especializada. Cabe então ao narrador o exame desse passado violento e a reescritura do enredo familiar. O resultado, uma prosa a um só tempo lírica e ensaística, lembra belos filmes platinos como O segredo dos seus olhos.



TRECHOS E FRASES:


"Que força tem o silêncio quando se estende muito além do incômodo imediato, muito além da mágoa."


"Ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência. Talvez a afirmação da continuidade da vida fosse apenas mais um modo de se opor à brutalidade do mundo."


"Mas há pesares que não sucumbem a argumentos, há dores que não se exageram. Há histórias que não se inventam à mesa, entre goles e garfadas,  entre papos quaisquer, histórias que recusam a proximidade com a leveza, que não se prestam à ruminação corriqueira, às frases diárias. Há casos que não habitam a superfície da memória e que, no entanto, não se deixam esquecer, não se deixam recalcar. No espaço de uma dor cabe todo o esquecimento, diz um verso sobre estas coisas incertas, mas os versos nem sempre acertam. Às vezes, no espaço de uma dor cabe apenas o silêncio. Não um silêncio feito da ausência das palavras: um silêncio que é a própria ausência."


"Nas páginas desse discurso conheci algo mais: a atrocidade de um regime que mata e que, além de matar, aniquila os que cercam suas vítimas imediatas, em círculos infinitos de outras vítima ignoradas, lutos obstruídos, histórias não contadas - a atrocidade de um regime que mata também a morte dos assassinados."


"É preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir,"


"Um dia tudo é provisório."


"Como é imensurável o tempo da inação, o tempo da distância, o tempo do silêncio, como é diferente deste tempo do encontro, das vozes que se cruzam, dos rostos que se veem."





VÍDEO:


Booktrailer: "A resistência", de Julián Fuks pelo canal da Companhia das Letras.






quarta-feira, 24 de maio de 2017

"BONECAS RUSSAS", ELIANA CARDOSO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS



Desde pequena, Leda foi tímida e sonhadora. Adorava lendas e colecionava mitos. Tendo herdado o interesse, mas não o talento artístico da mãe, tornou-se dona de uma galeria de arte. Já Lola sempre foi decidida e mandona. Obcecada por teatro, escrevia e distribuía papéis entre as amigas para as pequenas produções que seriam apresentadas nos aniversários. Quando cresceu, virou jornalista. 'Bonecas russas' é a história de Lola e de Leda, mas é também a história de Francisca, mãe de Leda, que a abandonou quando criança e nunca conseguiu restabelecer uma relação saudável com a filha. É a história de Odete, mãe de Lola, que se envolveu em um escândalo acompanhado por toda a cidadezinha de interior em que morava. É a história de Rosália, irmã de Francisca, a tia solteira que acabaria por criar as duas meninas juntas. E é a história de Miranda, filha do primeiro casamento do marido de Leda, que cresceria e também se tornaria jornalista, como Lola. O resultado é um emaranhado de relações que nem sempre são sempre claras, ideais ou mesmo construtivas, mas que vão se desdobrando até a revelação dos mistérios que cada uma dessas seis mulheres pretendera guardar apenas para si. Em sua estreia na ficção, Eliane Cardoso cria uma narrativa inteligente, original e surpreendente, composta de múltiplas vozes, todas especiais à sua maneira.



TRECHOS E FRASES:



"A posição natural do homem é a de flutuar no lugar que lhe sobra no meio dos anjos e demônios. Dessa forma, extrapola a própria mediocridade aquele que, quando tenta agarrar o nada, se torna gigantesco. E quando avança rumo ao infinito, enxerga a própria insignificância e percebe que a menor distância é insuperável. No meio dos anjos e demônios, ele entende que sua vida é ínfima, desnecessária, passageira. Comparados ao infinito, oitenta anos ou oitocentos são o mesmo que nada. Do ponto de vista da eternidade já estamos mortos ao nascer."


"O homem planeja seus passos e o diabo os embaralha."


"... felicidade é isso: aquele momento em que o tempo para. Quando acontece, me encanto."


"Vai. Mas verás que a saudade é como erva daninha. Arrancas. E ela brota de volta."


"Minhas alegrias e tristezas pertencem a esse mundo."


"... os alicerces dos nossos amores se compõem de antipatias: sem algo para odiar, faltaria a mola que impulsiona a paixão. " Sem paixão, a vida se transforma numa poça d'água estagnada"... "Como a réstia de luz precisa da escuridão, só a maldade torna possível a ternura.""


"Veja como a sociedade se comporta. Transforma a religião em fanatismo e o patriotismo em guerra. Qualquer pretexto nos basta para tentar estraçalhar o vizinho. O patriotismo nos faz amar os brasileiros? Não. Exige apenas o ódio a americanos e argentinos. O amor à virtude desperta o desejo de corrigir suas próprias faltas? Não. Apenas alimenta sua indignação contra o vício alheio."


"Cada um, e mais ninguém, sabe quem é o seu Shakespeare ou o Tiziano que lhe ilumina a alma."