domingo, 19 de julho de 2015

"ESTÓRIAS ABENSONHADAS", MIA COUTO - COMPANHIA DAS LETRAS



Depois de quase trinta anos de guerra, Moçambique vive agora um período de paz. Nestas Estórias abensonhadas, o premiado escritor Mia Couto capta um país em transição. Numa prosa poética e carregada das tradições orais africanas, o autor tece pequenas fábulas e registros que, sem irromper em grandes acontecimentos, capturam os movimentos íntimos dessa passagem.

Aqui, fantasia e realidade se entrelaçam e se impõem uma à outra, como num reflexo do próprio continente africano. O rio que atravessa essas veredas é a prosa de Mia Couto. Frequentemente comparada à de Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Márquez, sua escrita transforma o falar das ruas em poesia, e carrega de magia a dura realidade de seu país. As palavras se combinam em inúmeros significados, e no menor dos enredos cabe tanto o lirismo quanto a guerra.





Trechos e Frases:



"Neste lugar não há pedacitos. Todo o tempo, a partir daqui, são eternidades."
  

"...nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos."


"Meus olhos se neblinaram até que se poentaram as visões."


"O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente. Dizia, deste modo: -Tenho que viver já, senão esqueço-me."


"Aflição é ter um pássaro branco esvoando dentro do sono."


"... escuta, meu irmão, escuta este silêncio. O erro da pessoa é pensar que os silêncios são todos iguais. Enquanto não: há distintas qualidades de silêncio. É assim o escuro, este nada apagado que estes meus olhos tocam: cada um é um, desbotado à sua maneira."


"A solidão lhe doía como torcicolo em pescoço de girafa."


"O pouco se fazia tudo e o instante transbordava eternidades."


"A mulher, subvivente, somava tanta espera que já esquecera o que esperava. Justino guardava ferrovias, seu tempo se amalgava, fumo dos fumos, ponteiro encravado em seu coração. Entre marido e mulher o tempo metera a colher, rançoso roubador de espantos. Sobrara o pasto dos cansaços, desnamoros, ramerrames. O amor, afinal, que utilidade tem?"


"A lágrima é água e só água lava tristeza."


"As estrelas são os olhos de quem morreu de amor. Ficam nos contemplando de cima, a mostrar que só o amor concede eternidades."


"A janela: não é onde a casa sonha ser mundo?"


"Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve demais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira ser estória. Os factos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo."


"Sua única substância foi um suspiro."


"De noite, os seres mudam seu valor. O dia mostra os defeitos do mundo: rugas, poeiras, vincos, tudo na luz se vê. À noite se olha mais, se vê menos. Cada ser se revela apenas pela luz que dele emana."


"Toda madrugada confirma: nada , neste mundo, acontece num súbito."


"Neste tempo uterino o mundo é interino."


"Para sonhar o menino tinha que sangrar."


"Onde há uma palmeira sempre deve ser inventado um mar..."


"O medo é um rio que se atravessa molhado."


"O avesso da vida não é a morte mas uma outra dimensão da existência."


"Cada homem tem suas paixões viscerando-lhe dentro. Eu entrarei em ti para que não haja despedida, carne em carne."


"O sentimento, dizia ele, não tem logaritmo. Por isso, nem se justifica a sua equação."


"Não me intriga a voz visível mas a outra, silenciosa, subcorpórea, capaz de tantas linguagens como a água. Outrodizendo: eu quero adivinhar é os gemidos delas, esse resvalar de asas na frente do abismo, o arrepio da alma perdendo morada."


"Beijo não se dá nem se recebe. A vida é que beija, recíproca. Repito, mano: a vida é que nos beija, dois seres se resumindo num único infinito."


"Corpo de mulher não basta ter qualidades: é preciso ter qualificações."


"... nos amores sexuais não há macho nem fêmea. Os dois amantes se fundem num único e bipartido ser."


"Me formei em tristezas, sou cursada. A dor o que é? A dor é uma estrada: você anda por ela, no adiante da sua lonjura, para chegar a um outro lado. E esse lado é uma parte de nós que não conhecemos. Eu, por exemplo, já viajei muito dentro de mim..."


"Sofro, afinal, a doença da poesia: sonho lugares em que nunca estive, acredito só no que não se pode provar."


"A gente se desmoça só de tocar a atmosfera."


"A vida é água endurecendo a pedra. Afinal, requer-se fartura de coração."


"Escrevo como Deus: direito mas sem pauta. Quem me ler que desentorte as palavras."


"Certas felicidades só chegam com o não saber."


"Poesia não sara quem a vida não consola."


"Mas as belezas se subtraem: a gente vê a borboleta e esquece a flor."



quarta-feira, 27 de maio de 2015

"MADAME BOVARY", GUSTAVE FLAUBERT - ED. MARTIN CLARET



Madame Bovary  de Gustave Flaubert é um romance intenso que resultou num escândalo ao ser publicado em 1857.
O livro é considerado pioneiro dentre os romances realistas. Quando foi lançado, houve na França um grande interesse pelo romance, pois levou seu autor a julgamento devido à dura depreciação dos valores burgueses, sendo ele acusado de “imoralidade”.
Uma obra da qual tenho imenso apreço, pois além ser um dos grandes clássicos da literatura, sinto grande fascínio pelos romances e autores realistas.


Trechos e frases:




“Procuro nos búzios e no horóscopo o resto da minha dignidade. Tento ser mais cética, mais durona, mas sou totalmente tendenciosa quando alguma coisa diz que eu posso ser feliz. É sempre mais fácil culpar o autosabotamento com signos do zodíaco ou algo que se preze, do que entender que você, independente de onde marte esteja neste exato momento, gosta de arrancar as próprias penas apenas para ver aonde dói. 
(...) 
O amor que tanto se proclama, dessa busca e espera infindável, "que chegue e será bem vindo, que será esperado" que some em alguns meses, que se sobrepõe na esquina por um outro qualquer, por essa falta, esse buraco no estômago, essa fome de se sentir amado, de se sentir querido, de se sentir seguro, quando amor é nada além da sensação de estar caindo e não saber onde se segurar.
E por isso eu culpo toda e qualquer manifestação esotérica, pelo meu amor volúvel que vai para qualquer pessoa que me desperte algo que valha terminar o dia, e sendo assim é mais fácil despejar em alguma coisa impalpável a minha incapacidade de ser como o resto das pessoas.
Porque eu nunca tive motivos para acreditar em nada que dure para sempre. Porque eu sempre fui tocada pelas mais diferentes formas de vida e por qualquer frase um pouco mais inteligente, porque dói entender que a posição da lua não interfere no quanto eu morro um pouco todos os dias. Porque eu acredito em tudo e isso de não descartar nada me faz voltar para casa depois de me apaixonar a cada esquina, e querer uma cama só.
Eu me machuco pra saber onde dói, mas hoje sei exatamente que parte de mim sente mais falta dele. Tudo.”





domingo, 3 de maio de 2015

"LAVOURA ARCAICA", RADUAN NASSAR - ED. COMPANHIA DAS LETRAS



'Lavoura Arcaica' foi lançado em dezembro de 1975, é um texto em que se entrelaçam o novelesco e o lírico, por meio de um narrador em primeira pessoa - André, o filho encarregado de revelar o avesso de sua própria imagem e, conseqüentemente, o avesso da imagem da família. É sobretudo uma aventura com a linguagem: além de fundar a narrativa, a linguagem é também o instrumento que, com seu rigor, desorganiza um outro rigor, o das verdades pensadas como irremovíveis. Lançado em dezembro de 1975, Lavoura arcaica foi imediatamente considerado um clássico.


Narra em primeira pessoa a história de André, que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Quando é encontrado em uma pensão suja em um vilarejo por seu irmão Pedro, passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga e do conflito contra os valores paternos.

Sem ordem cronológica, André faz uma jornada sensível a sua infância, contrapondo os carinhos maternos e os ensinamentos quase punitivos do pai. Este valoriza acima de tudo o tempo, a paciência, a família e a terra, fiado na doutrina cristã. Mas André não aceita esses valores. Ele tem pressa, quer ser o profeta de sua própria história e viver com intensidade incompatível com a lentidão do crescimento das plantas. Nesse trajeto, a paixão incestuosa por sua irmã Ana, e sua rejeição, exercem papel fundamental na decisão de fugir da casa da família. A mãe desesperada manda o primogênito Pedro buscá-lo para tentar reconstruir a paz familiar. Trazido de volta para a fazenda, André é recebido por seu pai em uma longa conversa e uma festa que, ao invés de resolverem o conflito, evidenciam a distância intransponível entre as gerações. Por essa razão, a história é muitas vezes descrita como uma versão invertida da parábola do filho pródigo.



“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; se medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza; não tem começo, não tem fim; [...]”






Filme brasileiro de 2001, baseado no livro de Raduan Nassar, dirigido por Luiz Fernando Carvalho: